Maçonaria – A Primeira Bula Contra a Maçonaria

Maçonaria SegredosDando prosseguimento a nossa série, hoje vamos falar da primeira condenação dada pela Igreja Católica aos Franco-Maçons.

Lembrando que, como já foi dito no Post “Maçonaria – As Primeiras Condenações”, as primeiras condenações que a Ordem sofreu não vieram por parte da Igreja (e sim por parte dos Estados) e que essas condenações eram bem “locais”.

Ou seja, cada uma dessas “condenações” não atingiam tantos maçons como se poderia imaginar.

Além disso, também já foi falado, no Post “Maçonaria – A Liberdade Religiosa e o Início da Maçonaria Moderna” sobre os novos princípios que a Maçonaria passara a adotar em sua Constituição, que não eram mais declaradamente católicos.

Bem, o que veio a chamar a atenção, inicialmente, foi a proibição que a Ordem sofreu na Holanda (como já relatado no último post).

Podemos acompanhar, através de uma correspondência entre a Nunciatura em Flandres e a Secretaria de Estado do Vaticano, o que deu início a um processo de investigação a Maçonaria.

Tendo recebido algumas informações segundo as quais, na Holanda, ultimamente, foi proibida uma certa organização ou associação chamada “Dos maçons”, estes Eminentíssimos desejam que monsenhor, o Núncio, em Flandres, informe se está correto e quais são as razões que tiveram os Estados da Holanda para decretar tal proibição. Da mesma maneira, ele deve comunicar todas as informações que for possível obter sobre a ideia e os objetivos dessa Conventicula, isto é, o que aí se faz e as pessoas que as compõem.

A partir daí, começou-se uma investigação  em outros países, para que se pudesse recolher mais informações acerca da Maçonaria.

Alguns eclesiásticos, que exerciam cargo nos governos dessas nações que não estavam satisfeitos com a propagações da Maçonaria, acabaram se envolvendo mais diretamente no processo para que pudessem entender melhor os propósitos e objetivos dessa “misteriosa” Ordem.

A Bula “In Eminenti”

Com o passar do tempo, como já era de se esperar, as coisas ficaram um pouco tensas, principalmente quando as Lojas começaram a aparecer na Região da Toscana.

Após serem informados da presença de uma “congregação suspeita” (que já se sabia se tratar da Maçonaria) as diretrizes de Roma foram taxativas com relação ao seu objetivo, que passava a ser conseguir a ajuda do braço secular, através do príncipe, para que fosse possível agir contra os Franco-Maçons.

Era uma atitude compreensível tendo em vista que tanto o Papa Clemente XII, como seu sobrinho, o Cardel Néri Corsini (que veremos mais à frente) pertenciam a mais alta nobreza Florentina.

Além disso, ter a Maçonaria (que não era nem um pouco compreendida na época e que já tinha sido “condenada” por vários “países”) entrando nos domínios mais próximos do Vaticano, era algo para se preocupar (na cabeça deles, é claro).

Há uma polêmica com relação a isso (como sempre) de que o real motivo desse “empenho” teria sido o fato de que o Santo Tribunal da Inquisição estava caindo em descrédito por aquela região e tudo o que eles precisavam era de uma boa desculpa para recobrar o crédito.

Na mesma época, surgia uma Loja em Roma – e não é difícil imaginar como foi o procedimento tomado, tendo em vista o mesmo acontecimento em Florença. Sua data de fechamento foi em Agosto de 1737, quando foi fechada pela Inquisição.

Oficialmente, essa Loja existiu apenas por dois anos, tendo como registro mais antigo uma ata de Agosto de 1735. No entanto, nada é falado sobre a inauguração da Loja, o que pode nos levar a crêr que essa Loja já existia em uma data anterior a essa.

Devido a essas situações, o que a Igreja estava fazendo era seguir o exemplo das outras nações, que se sentiam ameaçadas pela Maçonaria, com a diferença de que uma ação da Igreja, em teoria, abrange um território maior do que uma condenação feita em uma determinada nação. Nesse caso, abrangeria todas nações onde ela tivesse fiéis.

E assim foi feito. Em 1738, a Igreja apresentou a Bula “In Eminenti” (de Clemente XII) que acusava a Maçonaria… “de propagar, sustentar, ou receber em suas casas ou dar abrigo às mesmas em outros locais, e escondê-las”.

“…de nelas se increver, a elas se unir e assistir às reuniões, ou dar a elas a possibilidade e os meios de se reunir, de fornecer a elas seja o que for, dar conselho, ajuda ou apoio às mesmas, aberta ou secretamente, direta ou diretamente, por si mesmo ou pelo intermédio de outras pessoas, de qualquer maneira que seja”.

“Ordenamos de maneira absoluta que eles se abstenham de todo o relacionamento com essas espécies de sociedades, assembléias, reuniões, grupos ou conventículos, sob pena de escomunhão incorrida ipso facto e sem necessidade de outra declaração”.

Os motivos apresentados nesses documentos foram os de “que homens de toda religião e de toda seita, dando-se uma aparência de honestidade natural, ligam-se uns aos outros por um pacto tão estreito quanto impenetrável, segundo as leis e os estatutos que eles mesmos elaboraram, e se obrigam, por um jurament prestado sobre a Bíblia e sob graves penas, a ocultar em um silêncio inviolável tudo o que fazem na obscuridade do segredo.”

“essas sociedades ou conventículos deram lugar, no espírito dos fiéis, às suspeitas tão bem fundadas, que o fato de se inscrever nessas sociedades é, para as pessoas honestas e prudentes, marcar-se com o selo da perversão e da maldade. Essa suspeita ganhou tanto corpo que, em muitos Estados, as sociedades mencionadas foram, já há algum tempo, proscritas e exiladas, como contrárias à segurança dos reinos.”

“ao refletir sobre os grandes males que normalmente provêm desse tipo de sociedades ou conventículos, não somente para a tranquilidade dos Estados temporais, mas também para a salvação das almas, e como não podem estar de forma alguma de acordo com as leis civis e canônicas…, e por outras causas justas e razoáveis conhecidas por nós…, decidimos e decretamos a condenação e a proibição das citadas sociedades de franco-maçons…”

O “Articulador”

Até aqui, é possível pensarmos que tudo isso foi feito pelas mãos de Clemente XII, certo? E como poderia ser diferente, já que a Bula é de Clemente XII?

Há algumas coisas importantes que muitas vezes são ignoradas quando se diz que essa é a Bula Papal de Clemente XII (apesar de essa informação, na teoria, ser correta).

Bem, o que precisamos saber acerca disso é que desde 1730, o papa Clemente sofreu um ataque de gota (uma doença reumatismal que se manifesta essencialmente através de ataques inflamatórios muito dolorosos nas articulações),  juntamente com uma frebre altíssima que colocou a sua vida em risco, a ponto de realizarem algumas conversas já pensando em um novo conclave.

Mesmo depois de ter se restabelecido e não correr mais riscos, Clemente viria a passar a maior parte do tempo preso a uma cama (principalmente por causa da gota).

Como se já não bastasse, dois anos depois Clemente também ficou cego (é, a vida é uma caixinha de surpresas).

Devido a essas questões, seu sobrino Néri Corsini, atuou como o braço direito de Clemente, tendo realizado muitas coisas, em nome de Clemente, que ainda nos fazem questionar se era, de fato, a vontade de Clemente.

É difícil mensurar qual a participação real de Clemente nas muitas ações tomadas por Neri, da mesma forma que é difícil dizer se todas as decisões foram aprovadas por Clemente.

Os acontecimentos nos fazem duvidar de uma participação significativa de Clemente, mas, quem sabe. Particularmente, não vejo muitos motivos para achar que essas decisões foram dele (de Clemente).

A Maçonaria Era Herege?

Apesar de ter tido uma Bula acerca da questão, e da ameaça de excomunhão para aqueles que descumprissem essa Bula, não havia algo sólido para que a Ordem fosse acusada de Heresia.

Os motivos da Igreja não apresentavam nada que realmente pudesse ser apontado como Heresia e que colocasse a Ordem em xeque.

Vejamos… A Ordem era acusada de um “segredo” do qual, pelo simples fato de ser um segredo, já colocava a Ordem em uma posição de, na teoria, estar escondendo algo que, sob hipótese alguma, teria como ser algo bom.

Ela é acusada por um Juramento que envolvia graves penas àqueles que  revelassem esse segredo. Penas essas que, apesar de realmente serem descritas de forma “cruel” (como é até hoje) ninguém nunca teve motivos reais para achar que elas iriam muito além do âmbito simbólico.

E há também a questão de reunir homens de todos os credos, a apresentando que, devido a isso, aparenta ter uma honestidade natural, mas que apresenta um juramento que pune gravemente os que violarem os segredos.

Ok. Pela forma como foi colocada, pode até parecer que se justifica. Mas perceba que tudo é baseado em um segredo que não sefaz ideia do que seja. E, curiosamente, não existe um motivo sequer que pudesse envolver algo que a Ordem fez e que tenha começado a gerar tanto incomodo nas nações.

Seu erro era apresentar uma ideologia que permitia um ambiente de Liberdade Religiosa em que pessoas de segmentos diferentes podiam se congregar. Se tornava assim um lugar onde poderiam surgir muitas ideias que não eram nem um pouco interessantes para os poderes dominantes (ainda que não parecesse existir motivos para se preocupar com isso).

A própria Igreja parece estar dando uma justificativa que está ali apenas para apresentar um motivo de algo que ela já queria fazer, que era o mesmo que as outras nações que condenaram a Ordem. A diferença é que, para fazer uma Bula e ameaçar de excomunhão, seria necessário um motivo (diferente das nações).

Na prática, essa Bula teve efeitos bem distintos nas nações por onde ela passou, tendo diversos lugares onde ninguém se importou com ela.

Apenas depois, em 1751, uma nova Bula foi feita para reforçar a Bula de Clemente, dessa vez, feita por Bento XIV.

Mas, infelizmente, isso terá de ficar para outros Posts.

 

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13 Responses to Maçonaria – A Primeira Bula Contra a Maçonaria

  1. Luis Fernando says:

    Salve “Admin”,

    Pelo visto a Maçonaria já sofria implicância devido a ignorância há séculos. É interessante refletirmos como o simples fato de tratar-se de uma Ordem fechada causa tantas coisas nas cabeças das pessoas que acabam criando a fantasia que elas acharem mais mirabolantes.

  2. Cesar says:

    Ótimo texto, Irmão. Infelizmente, nos últimos tempos você só tem postado um artigo por mês. Sentimos falta de quando tinham post quase toda a semana.

    TFA

  3. Paulo Ricardo says:

    Meu caro amigo,

    Fica cada vez mais nítido o quão esse blog está sendo importante para o cenário maçônico que temos hoje na internet. Um assunto geralmente cansativo escrito dessa maneira leve.

    É sempre um prazer estar por aqui, meu Irmão.

  4. Michael Aguiar says:

    Amigo, você trocou a ORDEM do número romano na última frase. É “IV” ao invés de “VI”.

  5. Fábio says:

    Bom dia. Na penúltima linha, a Bula de 1751 foi feita pelo Papa Bento XIV e não pelo Papa Bento XVI.

  6. Lucy says:

    “a vida é uma caixinha de surpresa”, hahauhauhauahu, saudades do Joseph Climber.

    • Gabriel P. says:

      kkkkkkkkkkkk o Papa Clemente talvez tenha sido a inspiração…

      O que tenho a perguntar Admin, é sobre uma coisa:

      Na sua opinião, existe ainda na Igreja Católica algo que impeça a revisão dessa Bula? Pois até é bastante compreensível as atitudes do passado, mas hoje a Maçonaria esta ai para todo mundo ver. Ou vamos esperar mais uns 100 anos?

      Abraços!!

      • Ia ser interessante se sim, mas até os dias de hoje a Igreja possuí dogmas que vão contra a Maçonaria. Então na minha opinião é mais fácil sair outra condenando do que corrigindo uma antiga bula. kkkk Não sei na opinião do admin, mas a minha é essa pelo que conheço.

  7. Guilherme Cunha says:

    Olá a todos,
    A Igreja sempre será contra a qualquer tipo de movimento ou instituição que vise a luta pelo esclarecimento da grande massa e a Franco Maçonaria é só mais uma vítima dessa praga que assola o mundo há tantos milênios e que existe até hoje porque o povo é acomodado e prefere viver de pão e circo.

  8. Bernardo says:

    Muito produtivo o que esse site faz a favor da Ordem. Como seria bom se 1% dos Irs.: se dedicassem a trabalhos como esse.

    T.:F.:A

  9. Gabriel P. says:

    Olá Admin!

    Na realidade, se formos pegar a historia recente da maçonaria, com o advento da internet, muito já foi aberto e encontramos inclusive certos tipos de coisa que não deveriam estar aparecendo.

    Na entrevista do Grão Mestre Geral do GOB, Marcos Jose da Silva, ele explica como a orientação do completo segredo da Maçonaria era uma interpretação errônea, pois a Maçonaria faz parte da sociedade:

    http://www.youtube.com/watch?v=Nhu8E03cDoo

    Com isso tudo, acredito que a Maçonaria passou por uma transformação nesses últimos 20 ou 30 anos.

    Foi por esse motivo que indaguei para uma nova resolução da ICAR.

    Apesar de que não precisamos nos importar muito do que a Igreja acha certo ou errado, até porque é a mesma instituição que proíbe o uso de preservativos…

  10. Artur says:

    Meu Irmão, você sabe me dizer se essas bulas ainda tem validade?

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