Maçonaria – A Questão Religiosa no Brasil

Eu não poderia terminar essa série de Posts sem falar do que hoje chamamos de “Questão Religiosa”.

O motivo se tornará bem óbvio durante a leitura pois esse evento se trata de um conflito ocorrido entre a Igreja Católica e o Estado e que tem um envolvimento tão forte da Maçonaria que faz com que alguns autores a apresentem tratando exclusivamente do conflito entre a Maçonaria e a Igreja e deixando todo o resto como plano de fundo.

A princípio, vamos estabelecer que, apesar de ter existido mesmo um conflito entre a Igreja e a Ordem, os motivos envolvem questões bem maiores e que viriam a ter repercussão por muitas décadas ainda.

Toda essa situação começa em 1872, quando Visconde do Rio Branco era prestigiado (pela Lei do Ventre Livre – que libertava todos aqueles que nascessem de escravas, a partir daquela data), no Palácio do Lavradio.

Um dos discursos proferidos, e que reflete bem esse acontecimento, foi feito pelo Irmão Antônio Alves Pereira Coruja, da qual podemos ver um trecho abaixo:

“Há meio século, quando se tratava de dar uma autonomia ao povo brasileiro, o Grande Oriente do Brasil viu a frente desse movimento o seu finado Grão-Mestre José Bonifácio, de saudosa memória, movimento que terminou com a gloriosa Independência, em 7 de setembro de l822. Vinte e oito anos mais tarde, foi ainda um ilustre membro da Maçonaria do Brasil, pertencente à Loja Regeneração, quem promoveu a lei que proibia e punia com severas penas os importadores da geração escrava: a lei de 4 de setembro (sempre setembro) de l850, está referendada pelo sempre lembrado Conselheiro Euzébio, cujo vulto tão grande nome adquiriu nas nossas lides políticas, cuja cinzas ainda hoje respeitamos, e cujo nome por uma providencial coincidência a Igreja Católica soleniza no dia de hoje em seus cânticos dirigidos ao Altíssimo. Agora, depois que se tem passado quase meio século da nossa emancipação política, um novo movimento se opera em favor da liberdade; e é ainda a um membro proeminente da nossa Maçonaria (referindo-se ao Grão Mestre Visconde do Rio Branco) que se deve seu êxito feliz.”

Foi nesse mesmo evento que o Padre José Martins (Grande Orador Interino do Grande Oriente do Brasil) fez um discurso (e que foi veiculado em alguns jornais da época) a favor de Visconde do Rio Branco, que era o atual Grão Mestre do Grande Oriente do Brasil.

“Segue-se daqui que, verdadeiro e realmente grande é o nobre Visconde do Rio Branco, que com a sua palavra inspirada, com seu vigoroso talento, com a generosidade de seu coração e com a coragem heróica do seu patriotismo escreveu na bandeira da Pátria, nos estandartes maçônicos e no livro da civilização americana a divina palavra – liberdade” (pequeno trecho).

Foi a partir desse acontecimento que ocorreu a manifestação do Bispo do Rio de Janeiro, Pedro de Lacerda, que intimou o Padre Martins a abandonar publicamente a Maçonaria, alegando que o Vaticano não a aprovava. Prontamente, o Padre Martins recusa alegando que as Bulas contra a Maçonaria não tinham validade em território Brasileiro. Como consequência, ele foi suspenso (o que não é uma surpresa).

Em seguida, a Maçonaria revida com fortes ataques, feitos através da imprensa, e que foram dirigidos pelas duas Potências Nacionais que tínhamos naquela época (lideradas por Saldanha Marinho e Rio Branco).

Antes de continuar, talvez seja importante esclarecer rapidamente essa questão ao Irmão Maçon que, porventura, esteja lendo esse artigo.

Provavelmente, o leitor maçon já está familiarizado com a história das Grandes Lojas (que se dá em 1927) e, posteriormente, com a história dos Grandes Orientes Independentes (que surgiram em 1973), no entanto, saiba que essas duas não foram, respectivamente, a segunda e a terceira potência a surgir no Brasil, após o Grande Oriente do Brasil.

Logo nas primeiras décadas após a fundação do Grande Oriente do Brasil (1815) surgem outras Potências devido a pequenas divergências, mas que vão se fundindo ou sendo absorvidos no decorrer do tempo. O mesmo também acontece com outros Supremos Conselhos, pois também surge mais de um, mas que depois voltam a ser um só novamente. Mas, como esse não é o tema do post, vamos deixar isso para uma outra hora. Citei apenas para o Irmão não achar estranho a existência de dois Grandes Orientes nessa época bem anterior ao surgimento das Grandes Lojas.

[Voltando ao assunto] Bem, como vocês podem ver, pela data do ocorrido, a Bula Humanum Genus, de Leão XIII, ainda não havia sido publicada. Porém, muitas outras bulas já haviam sido feitas, sendo a mais recente a de Pio IX.

Toda essa bagagem “contra” a Maçonaria já existia e, de certa forma, não deveria ser um espanto que isso fosse usado contra a Ordem sempre que fosse conveniente, onde quer que fosse (já que as Bulas não tinham restrições de local).

Mas por que então as Bulas contra a Ordem não tinham validade no Brasil? E se não tinham, poderia o Padre Martins ser punido por isso?

Pois bem, aqui começamos a entender que a questão não era, especificamente, contra a Maçonaria. Tinha a ver com a relação que a Igreja Católica e o Estado tinham (que era muito maior do que esses pequenos conflitos).

A Igreja Católica no Brasil (como em alguns outros países) funcionava com uma espécie de acordo entre ela e o Estado. Nesse caso, a questão era bem simples. O Estado bancava a Igreja e, em contrapartida, a Igreja apoiava o Estado e permitia que ele fizesse as nomeações importantes da Igreja (fazendo com que o Imperador pudesse nomear e trocar bispos e sacerdotes, por exemplo).

Dessa forma, o Estado poderia impedir quaisquer intervenções da Igreja nas questões que pudessem interferir em assuntos da nação e que o Imperador entendesse que não eram válidos. E foi esse o caso com relação as Bulas Papais que atacavam a Maçonaria e que fizeram com que o Padre Martins não acatasse as Ordens da Igreja (assim como alguns outros Padres que também eram Maçons).

Assim, após a punição imposta pela Igreja, e dos ataques feitos pela Maçonaria, muitos outros Padres começaram a ser punidos até que o Estado interviu para impedir que a Igreja prosseguisse com tais punições “ilegais” (aos olhos do Império).

O maior caso envolveu o Bispo Antônio Gonçalves de Oliveira, conhecido como Frei Vital.

Frei Vital foi um dos grandes problemas que a Maçonaria teve. Ele realmente estava disposto a destruir a Ordem. Vital se movimentou fortemente para fazer com que os Padres (apoiadores e membros da Maçonaria) se desligassem de qualquer possível contato que já tivessem tido com a Ordem.

Sua influência cresceu bastante e chegou a influenciar o Bispo do Pará, D. Antônio Macedo, que já estava tomando as mesmas atitudes que Vital.

O “basta” dado pelo Estado se deu através da suspensão dos Éditos publicados por Frei Vital, em 1874, e pela condenação do mesmo a quatro anos de prisão.

[Cabe lembrar que essa associação entre Estado e Igreja, apesar de ter esse caráter descrito acima, começou lá na Idade Média, quando o processo de "troca" entre eles era mais por questão de sobrevivência. A Igreja precisava do apoio dos Reis para poder se estabelecer nos lugares e os Reis precisavam da Igreja porque era ela que garantia para a população que os Reis eram Reis porque Deus queria assim.]

Mas, se a Igreja sabia que essas Bulas não tinham validade, por que então esses Bispos resolveram criar esse embate por conta própria?

Antes mesmo da Questão Religiosa, muitos intelectuais da época, que já tinham tido contato com as novas formas de pensamento Europeia, vinham apresentando diversas ideias liberais que estavam prejudicando a Igreja de forma direta e indireta.

Tal reação foi apenas uma resposta a algo que já estava se tornando uma verdadeira ameaça para a hegemonia católica. Felizmente, para todos nós, essa reação foi em vão.

A Questão Religiosa Influenciou a República

Agora que você já tem uma ideia dos acontecimentos e do que é chamado de “Questão Religiosa”, vamos a mais alguns esclarecimentos.

Existe uma certa polêmica acerca do quanto a Questão Religiosa influenciou no movimento da República Brasileira – se ela foi crucial ou se foi só um agravante.

Como já é de se esperar (na grande maioria dos assuntos polêmicos), é possível encontrar bons posicionamentos a favor e contra essa ideia. No entanto, apesar de se poder argumentar a favor sobre esse posicionamento, e defender tal posição com bons argumentos, não há nada que realmente nos permita afirmar isso com certeza.

Além de não termos nada realmente inquestionável acerca dessa questão, ainda existem dois pontos importantes a serem considerados:

O primeiro é o fato do povo não ter tido tanto conhecimento e/ou envolvimento direto na Questão Religiosa.

Não houve um “povo” a favor ou contra a “Questão Religiosa”. A esmagadora maioria não tinha muito discernimento para entender a complexidade dos fatos que se passavam. Eram questões políticas que, antes de mais nada, exigiam que uma pessoa comum soubesse que existiam outros sistemas no qual um país poderia ser governado.

A Igreja e o Estado não deveriam ser a mesma coisa, mas isso não era facilmente perceptível – e não custa lembrar que até hoje ainda temos muitas pessoas que não compreendem que isso não deveria acontecer (apesar de, obviamente, os números daquela época serem bem maiores).

O segundo motivo, tem relação com as ideias liberais que foram citadas anteriormente e que, nesse caso, incluíam um regime republicano e a separação total entre a Igreja e o Estado.

Ou seja, essas ideias já existiam bem antes da Questão Religiosa se tornar uma realidade.

O que podemos afirmar com certa segurança é que a Questão Religiosa agilizou o laicismo e a república. Quanto a apoiar ou não a ideia de que a Questão Religiosa foi um movimento crucial para que ambos acontecessem, fica a critério de cada um.

Por fim, gostaria de recomendar um livro ao leitor que queira se aprofundar na Questão Religiosa e nas relações entre Estado, Igreja, Maçonaria e até outros pontos menores que não teriam como ser tratados aqui como, por exemplo, a abertura que o Protestantismo ganha no Brasil após esses acontecimentos. O livro é “O Protestantismo, a Maçonaria e a Questão Religiosa no Brasil”.

Essa é uma obra de mais de 400 páginas e que trata apenas desse assunto. E, apesar de terem surgido novas descobertas (após essa obra ser escrita – e que nos mostrou novos dados acerca de alguns detalhes), o livro continua sendo excelente.

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14 Responses to Maçonaria – A Questão Religiosa no Brasil

  1. Fernando says:

    Como pode essas coisas ainda não serem estudadas nas escolas?

    • Aloísio Queiroz says:

      Vitor, não me leve a mal mas creio que Igreja e Maçonaria não são assuntos tão importantes assim para serem estudados nas escolas.

      TFA

      • Fernando says:

        Aloísio, Então você acha que não é importante conhecermos as brigas que levaram o Estado a se separar da Igreja? Desculpe mas eu vejo como algo importante sim.

  2. Ademar Pereira says:

    Olá admin,

    Já li o livro recomendado e realmente é um achado. Parabéns pelo post. Altíssimo nível.

  3. Ingrid Raposo says:

    O melhor post de toda essa série.

  4. Nessinha Underline says:

    Descobri o site a alguns dias e ainda estou lendo os posts mas quem diria que ia ter tanta gente acomapnhando um blog que fala de maçonaria e satanismo.

  5. Matheus Morais says:

    Admin, você acha que a Maçonaria ainda tem condições de liderar grandes movimentos como no passado, aqui e em outros países?

    • Maçonaria e Satanismo (admin) says:

      Caríssimo,

      Por inúmeros fatores, que dariam mais de um Post para listar e falar sobre, sinceramente acredito que não – mas é apenas a minha opinião.

  6. Maiara says:

    Qual será a próxima série de Posts?

  7. Get Smart says:

    Para dar a reposta se ele é maçon., ou não, ele utiliza a frase curta e breve: não. Aproveita para descreditar a internet(meio que ele não manipula) e inviabilizá-la . Marginalizar quem a utiliza, conceituando-a como instrumento de manobra de massas. Ao Invés de dizer o que pensa sobre maçonaria, introduz a filosofia relacional como forma de atuação e comportamento natural e comum para o cristão. A mensagem para seus súditos: “eu ando com eles(divergência) mas não que dizer que sou um deles. Independentemente de suas idéias e divergências, o mais importante é que todos acreditamos no nome de Jesus e na Bíblia. O espertalhação utiliza a mensagem “duplo sentido“ sabendo a maçonaria também fala de Jesus e admite a bíblia como materialidade de estudo. A tentativa deste indivíduo, foi explicar que não é maçon. sem ofender a maçonaria. Para isso nada melhor do que a neutralidade neste discurso.

  8. Jorge Noel says:

    Excelente post, meu caro!

    Só uma breve correção no 4º parágrafo: ao invés de “1972″, o correto seria “1872″, creio eu.

    Abraços multiplicados à moda da casa!

    • Maçonaria e Satanismo (admin) says:

      Ah sim, com certeza! Você crê corretamente, heheh… até porque, se fosse 1972 teria sido praticamente outro dia.

      Sempre bom lhe ver por aqui meu Irmão!

      Um Tríplice (e Sincero) Fraternal Abraço…

  9. BOLODÓROS says:

    O que fala a maçonaria, a igreja e o Estado e suas determinações de fato não merecem total atenção pelas massas, já que as mesmas estão a mercê dos ideais ocultos desta agenda inconcebível para aqueles que usufruem da fraternidade oculta. O que quero dizer com isso. É que caras como eu, apenas rezam pra não sobrar pro meu lado e o da minha família tendo pena de quem irá sofrer o revés. Se decidem guerra tem guerra, não tem jeito, se decidem paz tem paz. Já ouviu algum político falar que é masson? Eles não falam. E tem muito. Já ouviu o estado chamar o povo pra uma conversa sadia, para um debate racional e lógico quando a conversa é reajuste salarial? Eles metem é bala de borracha, gás lacrimogenio e cacetete. Agora falou em reeleição, mandato político e voto é o único dia civil que realmente o povo faz parte. Olha gosto muito da massonaria, respeito meu estado, acho que a igreja não foi julgada ainda pelos seus erros e quem cago feio já esta morto.]

    O que um escravo faz atras das grades? Eu do jeito que está está ótimo, Não quero saber de maçonaria, nem de igreja, nem de partido político. Prefiro sobreviver pra plantar batata, afinal eles precisam comer e gente que planta, eu nunca seria aceito e não tem nada que me faça querer ir lá também pra participar das decisões. Prefiro ser o escravo moderno. Por mim dane-se ser o chefão. Eles que se matem. Eu vou só assistir.

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