Maçonaria – A Repercussão da Primeira Bula

Antes de começarmos a falar da Bula de Bento  XIV, que veio em 1751, vamos entender um pouco sobre como a primeira Bula foi recebida por alguns países.

Isso se faz necessário porquê não é incomum que se acredite que, após a Igreja condenar oficialmente a Maçonaria (através de uma Bula Papal), ela fosse perseguida por todas as pessoas e tivesse que funcionar em sigilo absoluto, certo?

Bem, se você acompanha os posts desse Blog, já deve imaginar que não foi bem assim que as coisas aconteceram. Então, vamos entender um pouco de como tudo aconteceu.

Na Idade Média Baixa, a Igreja já tinha seus problemas com os Estados e agora (nessa época) não era muito diferente. Claro que, muitas das vezes, existia uma grande colaboração desses dois “poderes”, mas quando o troféu de “quem manda aqui” estava em jogo, era provável que surgissem problemas.

No entanto, o problema inicial (depois da bula) nem foi esse, mas sim o de que, naquela época, lançavam-se censuras e excomunhões por motivos bem insignificantes e com mais frequência do que deveria.

A consequência disso não é difícil de imaginar. Essas ações acabavam caindo em certo descrédito, quando aconteciam. As pessoas já estavam acostumadas aos “exageros” da Igreja e era difícil identificar o que deveria mesmo ser levado “mais a sério”.

Dentro desse cenário, o que não faltava eram historiadores, canonistas e alguns outros para questionar a validade das muitas penas canônicas que não preenchiam as condições exigidas pelo Concílio de Trento.

Como podemos ver:

“A excomunhão exige uma causa proporcional à grandeza dessa pena. Essa é a primeira e principal das regras estabelecidas pelos Concílios. Quando a causa for legítima e suficiente, quando o interesse comum exigir o recurso a esse remédio extremo, é preciso empregá-lo com prudência e circunspecção.” É preciso então, “verificar a existência do delito, citar e ouvir as acusações, utilizar todos os meios para vencer sua resistência e, enfim, só pronunciar a censura como última instância, quando não houver mais nenhum meio de recuperar o delinquente.”

Lembrando que, apesar das perseguições não serem como muitos imaginavam, não pense que elas não existiram, devido a isso. O que estou dizendo é que elas (como a Inquisição, no geral) precisam ser avaliadas sem preconceitos.

A Reação de Alguns Países

A França (como já vimos nos posts anteriores) já tinha seus problemas com a Franco-Maçonaria e esta já era perseguida antes de qualquer tipo de condenação da Igreja.

A questão aqui é que os motivos da França envolviam a “segurança” do Estado, não eram motivos meramente espirituais. Até porque, dificilmente a França se importaria com a Ordem por qualquer outro motivo.

O mais curioso nessa relação entre a Igreja e a França foi que, logo após a França ser informada sobre a bula de Clemente, parece que a Maçonaria foi deixada de lado, como se ela (a França) achasse melhor não fazer nada para que não parecesse que uma posição estava sendo tomada devido a uma imposição da Igreja.

Em um dos boletins manuscritos que corriam pela França, foi possível ver um comentário que dizia que o papa não tinha o direito de excomungar os franco-maçons, pois eles eram súditos do rei.

Com relação a Portugal e Espanha, antes mesmo de falarmos das consequências, é importante falarmos que elas demoraram para chegar até o seu destino. Não parece ter havido pressa por parte do Vaticano, o que reforça a ideia de historiadores que defendem que o motivo da Bula “In Eminenti” ter sido publicada foi devido a um problema particular envolvendo Roma e Florença.

Apesar de Portugal confirmar seu recebimento e agradecer por ter sido informada da introdução de tal ordem na região, nada foi feito contra a Ordem nesse período e o motivo para isso é interessante. Tentou-se descobrir, verdadeiramente, qual era o objetivo e propósito da Maçonaria (para ver se, de fato, a acusação do vaticano procedia). Mas a conclusão deles, após muitos depoimento, era de que “nesses lugares não se trata de nenhum assunto contra a religião católica e que essas pessoas não tinham outra intenção senão comer à vontade e distrair-se com um pouco de música”.

Atitudes mais firmes só começaram a ser tomadas contra a Maçonaria, em Portugal, depois de algumas décadas.

Já com relação a Espanha, se trata de um caso um pouco controverso.

Dezenas de autores citaram um suposto édito feito pelo rei Felipe V, em 1740, contra os franco-maçons. Simplesmente conta-se que ele teria sido obrigado a fazer isso, devido a Bula “In Eminenti”.

O problema dessa história é que não há fontes que comprovem que realmente existiu esse édito. Apesar de terem muitos autores falando sobre ele, não se pode descartar a possibilidade de que todos tenham se baseado em uma mesma fonte e que essa fonte não fosse confiável. Inclusive, existem muitos autores, um pouco depois dessa época, que afirmam enfaticamente que não existe qualquer traço de que esse édito tenha realmente existido.

Em virtude disso, podemos afirmar que a Espanha não se envolveu em nenhuma perseguição contra a Maçonaria. Mas, é importante citarmos que, mesmo que a Espanha  não tenha condenado a Ordem, isso foi compensado pelo Inquisidor Mor da Espanha, o arcebispo Dom Andrés de Orbe, que não só comunicou como também exigiu – a todas as regiões sob o domínio da França – o cumprimento de todo o conteúdo contido na Bula que se referia aos Franco-Maçons. Ele chega a advertir a todo aquele que for reticente e desobediente, com relação a Bula, que procederá com severidade e rigor.

No entanto, Dom Andrés era um homem da Igreja e o mais importante aqui é entendermos como os Estados responderam as determinações do Vaticano.

Depois disso, houve uma condenação de Fernando VI (que, diferente da de Felipe V, nós sabemos que existiu) que impõe uma pena contra os franco-maçons, mas não há “caça”, perseguição e nem prisões. Tratava-se apenas de tirar o emprego dos maçons que ocupavam empregos públicos.

No geral, esse cenário serve de resumo para que possamos ver que a primeira Bula não teve uma influência tão grande quanto se esperava e que foi preciso uma segunda para que a ideia fosse reforçada e se passasse a levar a sério a ideia de “condenar” a Maçonaria.

No mais, no próximo post falaremos sobre a Bula de Bento XIV.

 

Veja Também

Maçonaria – A Liberdade Religiosa e o Início da Maçonaria
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17 Responses to Maçonaria – A Repercussão da Primeira Bula

  1. Paulo Ricardo says:

    Meu amado Ir.’.

    Fico feliz de ver que resolveste aumentar novamente a regularidade das postagens do blog. Seus leitores agradecem.

  2. Luiz Felipe says:

    Eu estava começando a pesquisar os problemas da maçonaria com a igreja através de uns artigos na internet mesmo, mas depois que achei o blog prefri esperar acabar o assunto por aqui para depois passar para outros lugares tendo um melhor entendimento.

  3. Irmão, sem dúvidas você conseguiu transformar esse blog no mais importante site sobre Maçonaria do Brasil.

    Meus parabéns!

  4. Alberto says:

    Seria interessante aproveitar o momento em que o Brasil está vivenciando para abrir uma discussão sobre o envolvimento da Maçonaria nestas questões…

  5. Zé das Couves says:

    Desde sempre a França age igual criança mimada. PQP!

  6. Dr. Manhatan says:

    Aleister Crowley !

  7. Frater Prometheus says:

    Obrigado ao Irmão por fornecer essa qualidade de conteúdo que ajuda a todos os demais Irmãos no processo de desbastar essa enorme pedra bruta que somos. Continue assim e a luz sempre lhe guiará;

  8. Leo Fei says:

    Os posts vão ser mais frequentes novamente?

  9. Geraldo Luciano says:

    Ah, quanta gente precisa ler esse tipo de coisa.

  10. BOLODÓROS says:

    Prezado(s)

    Imagino a importância dos fatos e tantas bulas. Imagino se história ou estória fosse alvo apenas da Ordem em praticar matérias correspondentes a História da Maçonaria onde se aplicaria provas a seus iniciados a fim apenas de leva-los a ter em mente como matéria fundamental.

    Acredito que a Ordem Satânica, como Massônica tenham que enfrentar em tempos atuais problemas como o que segue:

    Satanistas usam um nome provocativo perante o mundo cristão. O fazem para afrontar, se é o caso, quantos membros quer angariar para mudar o mundo como desejam? Se não é para este fim, como desejam ser aceitos pela comunidade em maioria mundial. Já que se usassem qualquer outro nome nem seriam notados. Outra coisa é. Porque afirmar que não existe vida após a morte, quando se faz um contrato onde se vende a alma, já que ela não existe?
    Já quanto a Massonaria tentando desmistificar que adoram ao Diabo Bíblico, e tentam provar a o mundo que trabalham por um mundo melhor. Não assumem que seus membros Massons o fizeram pela força da Massonaria os bens que propões. Nenhum membro masson que faça o bem para o mundo não o declarada feito em nome da ordem e pela ordem. Outro fato, é que a Massonaria não possui um único hospital para massons, nenhuma comidade exclusivamente massonica com escolas, ou seja, um mundo masson completo onde só eles sozinhos mostrem que tem capacidade de fazer.

    Bem a perseguição a Maçonaria por não revelar seus segredos é um fato que jamais será sanado. Como já disse, porquê eu faria perguntas das quais nunca saberei a resposta?

    Bem eu sendo alguém de fora, fica ai as perguntas não respondidas as quais não acredito poderem ser esclarecidas tão cedo.

  11. Nuno says:

    Pode, por favor, referir-me qual é a ligação entre essa cruz de santiago, com a maçonaria?
    Não me parece plausivel utilizar simbolos cristãos apenas para ilustrar um artigo que, caso contrário, ficaria “seco”, isto, porque prefiro acreditar que foi apenas fruto de uma falta de seriedade, a acreditar que é fruto de uma falta de objetividade histórica.
    Isso não tem qualquer fundamento académico, histórico, ou meramente esotérico, e nunca tal ligação foi sequer levantada. A cruz de santiago está diretamente ligada à Igreja Católica, e, ainda que a Maçonaria utilize vastamente a linguagem dos símbolos, esse não é nem foi utilizado por esta.
    Se foi fruto de alguma falta de seriedade, rogo-lhe que se retrate e troque essa imagem. Já houvi muitos adjetivos a respeito dos “irmãos”, mas nunca que não eram sérios…

    • Maçonaria e Satanismo (admin) says:

      Caríssimo,

      Sinto lhe informar que a sua OPINIÃO não é a verdade inquestionável dos fatos!

      Esse Post (como muitos outros dessa Série) trata da relação da Igreja Católica com a Maçonaria. Apenas foi escolhido um símbolo Católico para ilustrar o mesmo, já que o assunto é referente a Igreja. Se alguém acha isso falta de seriedade, sinceramente, só consigo pensar que se trara de um fanático (como os muitos que aparecem por aqui frequentemente).

      Mas vamos então falar das inúmeras ações e atitudes da Igreja contra a Maçonaria, das quais, na MELHOR das hipóteses, podem ser consideradas “falta de seriedade”, mas que no geral serão consideradas (pelos maçons, principalmente) ofensas gravíssimas, falta de respeito, imposição de regras sem conhecimento de causa e etc.

      Para a Igreja, essa é apenas a opinião dos Maçons – e esse é um direito dela. Mas é uma ilusão sua achar que, frente a tudo isso, existe alguma possibilidade de eu trocar uma imagem de um Post relacionado as atitudes da Igreja só porque os Católicos podem considerar falta de seriedade.

      Mas fique à vontade, levando em consideração tudo isso, para levantar os “graves motivos” que lhe fazem considerar isso uma “falta de seriedade”. É realmente curioso ver um membro da Igreja Católica acusar alguém de estar faltando com respeito com relação ao Catolicismo quando essa mesma Igreja é a primeira a fazer isso com as demais instituições.

      Por fim, se dê ao menos ao trabalho de ler os Posts desse Blog – já que aparentemente você não o fez – e conhecer bem a postura que a Igreja já tomou contra a Maçonaria (e que ainda toma, pois já deixou claro que todas as bulas já emitidas contra a mesma continuam sendo plenamente válidas).

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