Satanismo – Jesuítas e a Inquisição

Após falarmos sobre a Inquisição Espanhola, vamos passar para outro ponto polêmico da história da Inquisição: A relação do Tribunal do Santo Ofício com a Companhia de Jesus (os Jesuítas).

Como todos os demais pontos polêmicos que envolvem a história da Inquisição, o grande problema de se avaliar a história são os dois extremos da questão sendo defendidos de forma apaixonada, sem a busca de uma análise mais lúcida.

De um lado, temos os “defensores” que tentam diminuir e praticamente apagar tudo que tenha ligado os Jesuítas ao Santo Ofício. Alguns, inclusive, insistem que eles tinham ideias contrárias e que isso, antes de qualquer coisa, já é prova mais do que suficiente para dizer que estes nunca trabalharam juntos.

Do outro lado, temos os “anticatólicos” que procuram sempre defender o lado que fique mais “feio” para a Igreja – o que, obviamente, também atrapalha no processo de estudo e avaliação do caso.

Antes de mais nada, gostaria de colocar algo que já disse aqui no blog, há mais de um ano: Os Jesuítas foram, direta ou indiretamente, um braço forte para a Inquisição.

Talvez, ao ler isso, o leitor esteja se perguntando se esse não seria o posicionamento radical de um anticatólico, como eu havia colocado acima. Bem, se você se perguntou isso, verá que independente da relação que ambos tinham, um com o outro, isso acabou sendo consequência (direta ou indiretamente).

A Companhia de Jesus

Particularmente, eu considero a Ordem dos Jesuítas a mais fascinante das Ordens Católicas.

A Companhia de Jesus foi responsável por um belíssimo sistema educacional cristão de dar inveja a qualquer instituição da época (e até de épocas posteriores).

Seus membros eram fortemente instruídos para que pudessem doutrinar e converter a todos os que não conhecessem ou que tivessem ideias contrárias as da Igreja.

Aqui, já vemos uma grande diferença entre os objetivos da Inquisição e dos Jesuítas. Enquanto uma reprimia, obrigando uma conversão através da força, a outra o fazia através do ensino e do esclarecimento.

Com relação a esse ensino, é evidente que não se pode esperar que as pessoas que estavam recebendo essas informações estivessem recebendo dos jesuítas um ensino imparcial. Se eles eram católicos e trabalhavam a mando do Papa, não fazia parte dos seus objetivos que as pessoas recebessem uma informação tão imparcial que, no final das contas, não convencesse ninguém.

Inclusive, eles sabiam trabalhar muito bem com povos que, longe de ser hereges, eram apenas pessoas com crenças bem distante das do catolicismo, como os índios do Brasil, por exemplo. Vocês provavelmente se lembram dessa informação na época de escola, quando aprendemos que os Jesuítas vieram para o Brasil, logo após o “descobrimento”, para catequizar os índios (e, aqueles que não tivessem jeito, poderiam ser escravizados, mortos ou qualquer outra coisa que garantisse que eles não iriam atrapalhar).

Além disso, eles também eram preparados em níveis altíssimos para serem capazes de lidar com intelectuais de outras crenças. Era preciso ser capaz de demonstrar que tudo aquilo que era defendido pela Igreja tinha uma base justificável.

Agora, vamos refletir. É bem mais fácil que alguém aceite uma condenação (não sendo com ela mesma) quando se compreende os “princípios” que, supostamente, regem o mundo – principalmente quando era feito com alguém que a pessoa não conhecia.

Também é importante frisar que a base que os Jesuítas utilizavam para ensinar era verdadeiramente a filosofia católica, que é muito rica, diferente do que muitos pensam (principalmente depois da Idade Média e de São Tomás de Aquino).

Dentre outras coisas, a Companhia de Jesus tinha ainda uma outra característica que, principalmente para a época, era fascinante, que era o fato de se adaptar facilmente as culturas com as quais ela se envolvia.

Dessa forma, era mais fácil que as ideias deles fossem aceitas, já que havia uma identificação com o transmissor da mensagem. Sendo que isso ia mais além, já que a mensagem também poderia ser adaptada de acordo com essa cultura. E não é que a ideia fosse modificada, mas sim a forma como a mensagem seria transmitida. Era um verdadeiro trabalho de Marketing contemplando análise, pesquisa, público-alvo, concorrência, posicionamento e outros elementos.

Você pode até não gostar dos Jesuítas, mas é difícil não achá-los fascinante.

Se os Jesuítas não existissem, talvez muitos pensassem sobre como poderia ter sido importante para a Inquisição se eles tivessem um “corpo” que trabalhasse no campo do intelecto, fazendo o papel que os Jesuítas fizeram por muitas vezes (que deixarei para o final).

Acordos e Desacordos

Talvez o maior dos problemas entre eles tenha sido a aceitação dos Cristãos que descendiam de Judeus.

A Inquisição tinha sérios problemas para aceitar que os descendentes de Judeus pudessem se tornar mesmo cristãos. Já os Jesuítas não viam nenhum problema nisso e os aceitavam verdadeiramente – o que foi motivo de conflito por muito tempo.

Dentre as críticas feitas aos Jesuítas, a mais pesada (do ponto de vista cristão) foram as acusações de que eles (os Jesuítas) produziam hereges e, em virtude disso, deveriam ser purificados pelo fogo (literalmente). Eram acusados de ser uma seita protestante infiltrada no seio da Igreja Católica.

Apesar de tudo, tais conflitos e acusações não eram uma posição oficial (e nem poderia, já que ambos pertenciam a Igreja). Tudo isso partia de pessoas específicas que eram declaradamente contra a Ordem dos Jesuítas. Até porque, se fosse de outra forma, nunca teríamos Jesuítas ajudando a Inquisição.

Também é importante não ignorarmos que, independente da ajuda que os Jesuítas deram a Inquisição (nos vários períodos da história), a maioria o fazia a contragosto e alguns chegaram a afirmar abertamente que só o faziam porquê eles jamais questionariam a autoridade papal, principalmente pelo fato de isso constar nos princípios da Ordem.

Curiosamente, esse mesmo princípio serviu para que Inácio pudesse fazer uma recusa quando foi chamado para presidir um dos Tribunais. Ele negou sob a alegação de que estes eram isentos de hierarquia e que isso não existia para os Jesuítas, de acordo com a doutrina já estabelecida.

Mesmo havendo essa recusa de participar ativamente, Inácio ajudou D. João III, em Portugal, a implantar ali o Tribunal da Inquisição.

Os Jesuítas foram cruciais na fundação de vários outros tribunais, mas é um erro atribuir isso a um desejo dos Jesuítas de fazerem a Inquisição estar presente naquele local.

Houveram casos sim de membros que colaboravam com a Inquisição por vontade própria e por acreditar ser o certo, mas isso, nem de longe, engloba todos aqueles que colaboraram com ela (principalmente nesse caso).

Por mais que pareça um contrassenso que alguém que fosse contra a Inquisição resolvesse ajudá-la, é importante olhar isso de outro ângulo. Muitos faziam isso porquê estando próximo eles poderiam ajudar a diminuir as penas dos acusados e, em alguns casos, até evitá-la.

É por isso que o maior ponto de acordo entre os Jesuítas e a Inquisição era com relação a pregação dada aos condenados da Inquisição para que eles pudessem se arrepender e se livrar da pena.

Por fim, não podemos esquecer da contribuição intelectual direta que foi dada pelos Jesuítas.

Os Jesuítas eram muito requisitados nos processos judiciais do Santo Ofício para questionar e argumentar a favor da Inquisição. Muitos deles também eram solicitados para atuarem como “qualificador do Santo Ofício”, que tinha a função de dar um parecer sobre os livros apreendidos, sobre declarações dos prisioneiros e  sobre o conteúdo de denúncias.

Tal parecer técnico teve, em todos os casos, um valor significativo nas decisões judiciais.

Posteriormente, a Inquisição foi desenvolvendo novas “estratégias”, melhorando cada vez mais a sua capacidade intelectual para lidar com essas situações – mas, sinceramente, eu não sei dizer se foi baseado em algum processo utilizado pelos Jesuítas.

Bem, creio que tenha sido possível explicar a relação entre eles e a importância que a Companhia de Jesus (apesar dos conflitos) acabou tendo para a Inquisição.

Mesmo o post tendo ficado um pouco grande, obviamente existe muito mais para se falar acerca do assunto, portanto, caso alguma coisa não tenha ficado clara, basta comentar logo abaixo.

 

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7 Responses to Satanismo – Jesuítas e a Inquisição

  1. Matheus says:

    Gostei da citação dos índios. Esse país não foi descoberto, já havia uma população vivendo aqui.

  2. Paulo Ricardo says:

    Inspirador essa forma de abordar os Jesuítas. Resolvi procurar um pouco mais sobre eles e me gerou um certo fascínio também, mas devo admitir que parte disso veio da forma como o Irmão colocou a informação.

  3. hyrt says:

    Como posso virar um Parceiro?

    • Maçonaria e Satanismo (admin) says:

      Depende, meu caro. Primeiramente, para fazer sentido, você precisa ter um blog/site relacionado ao tema. No entanto, além disso, os parceiros do blog costumam já tem alguma outra relação com o blog além de simplesmente colocar o nome do blog como Parceiro.

    • Dorothy says:

      Muito bom Beto. Sem vocea jamais teaimros estes momentos registrados. Espero que a ABES tenha como armazenar este acervo para no futuro relembramos o nosso passado. As coisas boas que estamos fazendo Uma abrae7o, Vitorio.

  4. Hugo Bacchi says:

    Os textos estãos ótimos, meu Irmão. Meus parabéns.

    TFA

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